ENSAIOS (E RASCUNHOS) DE GESTALT TERAPIA |
Sábado, Setembro 08, 2007
ATENÇÃO E MEMÓRIA
NA ATUAÇÃO CLÍNICA EM GESTALT-TERAPIA Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Este artigo se propõe a delinear uma breve relação entre conceitos da psicologia cognitiva ligados aos processos de memória e atenção e a abordagem clínica da Gestalt-Terapia. Pretendo não me ater à definições sistemáticas dos conceitos trazidos por Robert J. Sternberg em seu livro Psicologia Cognitiva (2000), buscando fazer uma correlação mais objetiva quanto às propostas e posicionamentos expressos pela Gestalt-Terapia enquanto prática em psicoterapia. Qual a relação entre a Gestalt-Terapia e a Psicologia Cognitiva? Aparentemente nenhuma, tendo em vista que a primeira se caracteriza fundamentalmente como uma abordagem em psicoterapia e a outra como uma linha de investigação científica da psicologia. Ambas, no entanto, sofrem influência direta da Psicologia da Gestalt, sistema teórico da psicologia caracterizada principalmente por suas contribuições na investigação de processos psicológicos ligados à percepção, memória e aprendizado. Afora essa semelhança quanto à fundamentação teórica, é difícil entrever uma relação mais profunda entre essas duas vertentes de conhecimento e prática da psicologia. Podemos constatar, no entanto, que processos como o de atenção, percepção e memória, detidamente trabalhados pela Psicologia Cognitiva tem sua aplicabilidade constatada, mesmo que indiretamente e de forma subliminar na prática clinica da Gestalt-Terapia. A Gestalt-Terapia é uma abordagem criada por Frederick Salomon Perls, conjuntamente com Laura Perls e Paul Goodman, inicialmente como uma técnica psicoterápica. Influenciada não apenas pela Psicologia da Gestalt, a Gestalt-Terapia nasce fundamentada também pela teoria de campo de Hurt Lewin, pela teoria organísmica de Goldenstein e pela holística de Smuts, como fundamentos teóricos, além do movimento humanista, da fenomenologia, do existencialismo e da filosofia dialógica de Martin Buber, sem contar com as influencias orientais do Zen-budismo, como bases filosóficas (Kiyan, 2001). Essa abordagem baseia-se numa concepção de homem sadio, em constante reação de contato em variados campos, no psicoemocional e sócio-ambiental (Ribeiro, 1997), numa dinâmica voltada para a realização de suas necessidades e desenvolvimento do sujeito. A concepção de saúde da Gestalt-Terapia envolve uma idéia de homem em constante interação com o mundo, envolvida num ciclo de relações fundamentais norteadas por uma dinâmica dialética de contato e fuga, tendo como finalidade principal alcançar e equilíbrio - homeostase - do organismo. Quando há interrupção deste ciclo - o ciclo de contato - e as tensões e necessidades não encontram uma forma de satisfação, estabelece-se um processo de desequilíbrio que representa as interrupções neuróticas do contato. Através de uma abordagem centrada no sujeito e voltada para o restabelecimento deste ciclo e de sua dinâmica, o terapeuta busca, através de uma perspectiva vivencial e expressiva, munida por técnicas diversas, possibilitar no sujeito o seu retorno no ciclo contato, à uma interação saudável com o mundo em suas diversas dimensões interativas. Em termos gerais, o gestalt-terapueta objetiva possibilitar ao cliente uma tomada de consciência - awareness - de sua realidade existencial e de sua condição ativa sobre o mundo e sua vida. Para se estabelecer essa tomada de consciência, utilizam-se métodos que possibilitam um encontro vivencial do sujeito com sua própria realidade, através de técnicas psicodramáticas ou formas de expressão do sujeito por si mesmo, mediado pelo terapeuta, que facilita seu encontro e seu processo de auto-descoberta. Sim, mas de que forma a atenção e a memória entra neste processo? Para iniciar efetivamente essa correlação, proposta no início deste texto, utilizarei-me da citação de William James, trazida por Sternberg, na introdução do seu capítulo sobre Atenção e Consciência (p.78): [Atenção ] é a tomada de posse da mente, em uma forma clara e vívida, de um dos diversos objetos ou séries de pensamentos que parecem simultaneamente possíveis... Implica o abandono de algumas coisas, a fim de ocupar-se efetivamente de outras. - William James, Principles of Psycology. Segundo esta citação, a atenção é concebida como uma função ativa da mente, com o sentido de direcionar o indivíduo a entrar em contato com estímulos do meio ou pensamentos, mobilizando-o num ato de intencional sobre si e sobre o mundo. De acordo com essa interpretação, a atenção constitui-se um processo fundamental e indispensável na prática terapêutica da Gestalt-Terapia, tendo em vista que a tomada de consciência - awereness - nada mais é do que a possibilidade de o sujeito entrar em contato direto com seus pensamentos, suas emoções e aflições, bem, como atentar-se para os vínculos e relações desempenhadas por ele no mundo no qual ele se encontra inserido como ser existencial e ativo. Sternberg, em seu capítulo sobre Atenção e Consciência busca estabelecer uma diferenciação inicial entre estes dois conceitos. Ele relata que os psicólogos costumavam confundir atenção com consciência, sendo esta última caracterizada como "o fenômeno pelo qual não apenas processamos ativamente a informação, mas também estamos conscientes disso", enfatizando a tendência atual de se conceber um processamento ativo da atenção sem necessariamente o envolvimento de nosso conhecimento consciente. Desta forma ele introduz a concepção de um processamento pré-conciente da atenção, envolvido principalmente em fenômenos como a percepção subliminar, o priming e os processos automáticos. Os processos automáticos, em particular, são considerados como recurso cognitivo importante, que envolve a economia de energia para a realização de atividades do sujeito, possibilitando um maior dinamismo em sua interação com o mundo. Em sua obra Gestalt-Terapia, Perls, juntamente com Goodman e Hefferline expõe a existência de três propriedades do Self, o Ego, o Id e a Personalidade, que compreenderiam mecanismos constituintes da dinâmica de interação e contato do sujeito com o meio à sua volta. Ao Id, caberia os aspectos mais primários e básicos do contato, e envolveria um gasto mínimo de energia por parte do organismo. Perls salienta, entretanto, o caráter de intencionalidade da relação, que envolveria, em certa medida, o papel da consciência, exercido pelo Ego, é fundamental para a realização de um contato pleno. A Gestalt-Terapia valoriza imensamente esse caráter da consciência no processo de interação do sujeito com o mundo, a ponto de constituir um de seus objetivos maiores enquanto prática psicoterápica, possibilitar o restabelecimento dessa intencionalidade, bem como a formação de uma responsabilidade existencial do sujeito sobre sua própria vida. Na introdução de seu livro A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia, Perls salienta a sua crítica à avassaladora rotina da vida moderna, norteada por automatismos que acabam por impedir que o homem entre em contato direto com o mundo e consigo mesmo. Qualifica, pois, essa rotina como o responsável pela dessensibilização do homem para com sua própria vida e saúde, por aliena-lo dos prazeres e das experiências a cada momento possíveis e indispensáveis para se alcançar um estado de auto-realização. Em todo o caso, a própria concepção de consciência da Gestalt-terapia é distinta da defendida pela Psicologia Cognitiva, envolvendo uma dimensão além do pensamento consciente e racional, e envolvendo uma dimensão integrativa do sujeito em seus diversos campos de interação. O que aproxima ambas abordagens é a idéia da atenção consciente quanto aos seus objetivos, expressos de forma precisa por Sternberg: (...) a atenção consciente satisfaz outros três objetivos: (1) monitorar nossas interações com o ambiente, mantendo nossa consciência de quão bem estamos nos adaptando à situação na qual nos encontramos; (2) ligar nosso passado (memórias) e nosso presente (sensações) para dar-nos um sentido de continuidade da experiência, que pode até servir como a base para a identidade pessoal; e (3) controlar e planejar nossas futuras ações, com base na informação da monitorização e das ligações entre as memórias e as sensações presentes. 4 A partir dessa citação, podemos estreitar a relação possível entre a Gestalt-Terapia e a Psicologia Cognitiva, no que diz respeito à atenção e à memória. A pratica da Gestalt-Terapia vem justamente no sentido de buscar possibilitar no cliente esta consciência de suas interações com o mundo, buscando uma adaptação mais efetiva do sujeito aos eventos à sua volta, adaptação esta que não implica em ato passivo, mas em admissão de uma atitude consciente e responsável sobre seus atos e suas conseqüências sobre o mundo e sobre sua própria vida. A ausência de uma postura consciente e engajada, segundo a Gestalt-Terapia, é que leva a um processo de adoecimento do sujeito, equivalente à interrupção do contato deste com o mundo, se prendendo a velhas formas de contato, a repetições e introjeções de emoções e sentimentos que acabam por desestabilizá-lo em todos os seus campos de relação. As técnicas psicoterápicas dessa abordagem são realizadas no sentido de possibilitar essa tomada de consciência para todos os aspectos que constituem o sujeito enquanto totalidade, fazendo-o vivenciar no momento imediato do aqui-agora as questões que emergem como necessidades ou pendências que por ventura tragam sofrimento a ele. Para tanto, o terapeuta busca trabalhar no cliente uma atenção seletiva, tentando centrar suas queixas nas questões - figuras ou gestalten incompletas, segundo o jargão gestáltico da dinâmica perceptual figura-fundo - mais significativas e emergentes que surgem no encontro terapêutico. Ao próprio terapeuta cabe o papel de manter, no momento do encontro com o cliente, uma vigilância constante, a fim de que possa captar os elementos significativos que por ventura surjam no discurso do cliente, em seu comportamento observável, em suas reações a intromissões por ele realizadas, mantendo a todo instante um contato intencional, realizando intervenções pertinentes e adequadas à cada situação. É claro que há sempre a possibilidade de a "vigilância terapêutica" direcioná-lo a respostas equivalentes às da teoria da detecção de sinal (TDS), da Psicologia Cognitiva: Segundo a teoria da detecção de sinal, há quatro conseqüências possíveis de uma tentativa para detectar um sinal: acertos (também chamados "corretos positivos"), nos quais identificamos corretamente a presença de um sinal; alarmes falsos (também denominados "falsos positivos"), nos quais identificamos corretamente erroneamente a presença de um sinal que é realmente ausente; erros (também chamados "falsos negativos"), nos quais deixamos erroneamente de observar a presença de um sinal; e rejeições corretas (também denominadas "corretos negativos"), nos quais identificamos corretamente a ausência de um sinal. De forma bem evidente, é possível evidenciarmos esses possíveis caminhos (acertos, alarmes falsos, erros ou rejeições) defrontados pelo terapeuta durante os instantes em que interage com o cliente e busca, de forma vigilante, perceber cada detalhe que por ventura o paciente expressa sobre suas aflições. A maioria das vezes, os conteúdos trazidos pelo cliente se de forma não consciente, em suas diversas manifestações, seja, como já disse, pelo discurso, seja por outros recursos, como os gestos, a interpretação de situações vivenciadas, ou por expressões artísticas. No que diz respeito à interpretação de situações vivenciadas, e angústias decorrente de situações inacabadas, remeto ao papel da memória, que juntamente com a atenção e a consciência, tem participação fundamental na definição do psicodiagnóstico dos casos e no andamento do trabalho terapêutico. Muito dos conteúdos apresentados no encontro terapêutico vêm de experiências vividas pelo sujeito e que retornam constantemente à consciência do paciente, causando-lhe angústia, por não sentir-se capaz de, sozinho, conseguir superá-las. Esse processo de recuperação das informações armazenadas na memória, a maioria das vezes requer lembranças associadas à memória de evocação, de idéias já conhecidas, de fatos já vivenciados e que muitas vezes emergem sem uma ordem exata (evocação livre), seguindo o fluxo das ideais que vão se associando ao longo da fala do cliente. Muitas vezes, no entanto, esse processo pode se dar de forma implícita, sem que o cliente se dê conta exatamente dos elementos que agem em sua vida, influenciando em seu estado de ansiedade, mas que se manifesta e persiste em seus comportamentos presentes, em suas resistências e rejeições quanto a contato consigo e com seus campos de interação. Cabe ao terapeuta mobilizar recursos para que o cliente possa entrar em contato com essas memórias e vivencie de forma atenta cada sensação envolvida naquela experiência ou sentimento evocado. Ao trazer para a consciência elementos mnemônicos, o terapeuta mobiliza o cliente a tomar consciência de elementos presentes em sua memória de longo prazo que dão uma idéia do sujeito enquanto uma integralidade, um processo contínuo de experiências vivenciadas, atentando para cada aspectos, cada comportamento experienciado ou idealizado, de modo a fazer com que mobilize energias a fim de que possa posicionar-se de forma ativa e existencial sobre sua própria realidade. Muitas vezes, o terapeuta faz com que o cliente repita frases que ele mesmo havia expressado e que podem vir impregnada de significações, e que muitas vezes não perceptíveis. Essa repetição possibilita que o cliente mantenha por mais tempo uma determinada informação como figura emergente no campo perceptual, possibilitando que ele tome consciência de alguns aspectos de sua fala ou de traços de seu próprio comportamento, tom de voz, etc, e os ressignifique. A partir dessa ressignificação, através da vivencia enquanto possibilidade ou expressão existencial, é possível o armazenando de uma nova experiência, de novos (auto-)conceitos, revistos e reelaborados, em sua memória, de modo a retroagir positivamente em seu comportamento futuro. Desta forma, novamente, a atenção e a memória se associam e interagem juntamente com os processos de auto-percepção do cliente, na prática terapêutica, em destaque na Gestalt-Terapia, possibilitando que ele tome consciência existencial de si-mesmo, e possa vivenciar o aqui-agora, elaborando projetos mais coerentes e integrados para o futuro, aberto à perspectiva do contato e da relação consigo e com o mundo à sua volta. Creio ter me detido um pouco mais sobre a questão da atenção, mas considero que esta é fundamental tanto no processamento de aquisição quanto de evocação de memória, seja de curto, seja de longo prazo. Como deixei claro, no início do artigo, pretendo relacionar esses dois conceitos, de atenção e memória à prática da Gestalt-Terapia. Por tratar-se de um artigo curto, não foi possível explanar melhor sobre alguns conceitos, tanto dessa abordagem como da Psicologia Cognitiva. Espero, no entanto, poder ter atrelado, ao menos de forma panorâmica, algumas idéias fundamentais de ambas abordagens e teorizações da psicologia. Concluo afirmando que tanto a atenção quanto a memória são elementos indispensáveis para a manutenção e operacionalização do ser humano, possibilitando sua interação com o mundo, viabilizando processos de percepção da realidade e formação de autoconceitos. Assim, a possibilidade de relacionar idéias e conceitos das mais diversas linhas de pensamento, como tencionado aqui, neste breve artigo, só demonstra a riqueza e as possibilidades de construção de um saber, cada vez mais amplo sobre o homem, em seu processo de construção e auto-descoberta, seja através de estudos científicos, como os da Psicologia Cognitiva, seja por meio de práticas voltadas para a compreensão do homem em interação consigo e com o outro, no mundo ou em um encontro terapêutico. Salavdor, 11/12/2005 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. - São Paulo: Editora Altana, 2001. (Coleção Indentidades) PERLS, Frederick., HEFFERLINE, Ralph., GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. - São Paulo: Summus, 1997 PERLS, Fritz. A abordagem gestáltica e Testemunha ocular da terapia. - Rio de Janeiro: LTC Editora, 1988. RIBEIRO, Jorge Ponciano. O ciclo do contato: temas básicos na abordagem gestáltica. - São Paulo: Summus, 1997. RODRIGUES, Hugo Elídio. Introdução à Gestalt-Terapia: conversando sobre os fundamentos da abordagem gestáltica. - Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. STERNBERG, Robert J. Psicologia cognitiva. ¿ Porto Alegre: Artes Medicas Sul, 2000. Comments:
GESTALT-TERAPIA E TRANSGRESSÃO:
A RELAÇÃO TERAPEUTA-CLIENTE E A ARTE NA PÓS-MODERNIDADE Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Neste breve ensaio, que neste momento me proponho a escrever, busco apresentar, tomando ainda como base o livro de Hugo Elídio, "Introdução à Gestalt-Terapia", um paralelo entre essa abordagem e a perspectiva de arte na pós-modernidade. Tenho que admitir que meus argumentos não se fundamentam necessariamente a conhecimento teórico específico, ou seja, não pretendo fazer citações ou lançar mão de referências bibliográficas, mas apenas esboçar um raciocínio decorrente de discussões travadas em nossa última reunião do grupo de estudos e em conversas minhas com minha irmã, concluinte do curso de em Letras, pela UFBA. Bem, primeiramente tratarei da questão ligada à postura do terapeuta em relação ao cliente na terapia, que creio já ter sido mais do que trabalhada em meus outros textos, mas que retomo agora por achar pertinente e necessário. Tendo como base nossas leituras do livro de Elídio, bem como nossas aulas de Teorias e Sistemas Psicológicos II, com a professora Lika Queiroz, temos que a Gestalt-Terapia, com sua base fenomenológica e existencial, tende a valorizar o sujeito enquanto consciência de si mesmo e do mundo. Nisso, a terapia buscaria validar o sujeito e mobiliza-lo a tomar consciência, awareness, de si mesmo, cabendo ao terapeuta o papel de mediador, de facilitador desse processo de auto-descoberta, através de uma relação dialógica de caráter eu-tu. Nesse ponto creio que devemos ressaltar o caráter inovador da Gestalt-Terapia e das abordagens humanistas no sentido de verdadeiramente transgredir a noção de terapia como prática de promover a saúde. Transgressora no sentido de corromper com a concepção de doença do modelo médico, que visa geralmente alcançar a cura do sintomas e deixa de encarar o paciente-cliente como um indivíduo, uma totalidade que é muito mais complexo que um organismo físico, sem no entanto desmerecer esse aspecto. É claro que a medicina e as outras áreas de saúde tendem, atualmente, eu imagino, ou torço para que assim seja, a buscar desenvolver esse olhar sensível ao ser humano, como ser dotado de subjetividade, emoções e individualidade, que vai além da disfunção de um órgão ou de um quadro classificado como psicopatológico. Além disso tudo, e eis um dos aspectos que mais me chamaram a atenção para essa abordagem, é a relação direta da prática com a arte, com formas de expressão, seja ela dramática, corporal, ou visual e expressiva. Nesse ponto também a Gestalt-Terapia traz uma nova dimensão dessas técnicas, no sentido de não buscar a interpretação racional dos produtos de criação artística, como se propõe, por exemplo, a Psicanálise, ao buscar interpretar os elementos simbólicos e inconscientes presentes no objeto criado. A Gestalt-Terapia se preocupa em fazer com que o cliente entre em contato com suas criações, colocando-as como um prolongamento do próprio indivíduo, como parte significativa de sua individualidade e subjetividade, possibilitando assim se estabelecer um momento existencial de auto-descoberta e significação. Dessa forma não é o terapeuta quem exerce um papel de voz autorizada para interpretar e analisar o sujeito, desvelando seus mecanismos de expressão e comportamento, mas sim o próprio sujeito, o cliente, torna-se responsável por sua vida, sua existência, ao ter valorizado seus aspectos criativos, sua identidade e sua autonomia, ao ter, durante o processo terapêutico, despertada a consciência para sua própria existência, para seu compromisso e sua responsabilidade existencial na relação travada consigo mesmo e com o mundo. É quanto à questão de corromper com essa "voz autorizada", exercida pelo terapeuta, que traço um paralelo entre a Gestalt-Terapia e a arte na pós-modernidade. Durante nossa última reunião do grupo de estudos, quando tratávamos da relação estabelecida entre terapeuta-cliente, lembrei-me de ter visto em uma livraria um livro com um título como "Lixo ou Arte?". Não me lembro o nome do autor, mas tratava sobre a arte na pós-modernidade, envolvendo os movimentos de arte conceitual e as vanguardas pós-década de cinqüenta. Pelo que eu pude perceber, e coerente a conversas que tive com minha irmã sobre literatura e arte durante o período dela na graduação, creio que o ponto fundamental de discussão era o fato de um objeto aparentemente ordinário, banal e cotidiano, como um conjunto de louça para servir café (exemplo citado no fundo do livro que eu vi na livraria) se tornar um objeto de arte, leiloado por 24 mil dólares, pelo simples fato de ter se transformado em uma relíquia, ao participar de uma performance de um artista servindo xícaras de café para os visitantes de um Museu. A grande polêmica por traz disso está no fato de que a peça em questão, por ter sido qualificada por uma voz autorizada, como um crítico de arte ou um artista famoso, passa a ter um valor maior, adicional, que o distingue dos outros jogos de chá, que o estigmatiza e o rotula como obra de arte, ou lixo. De forma semelhante temos os críticos de literatura que distingue a boa literatura, ou literatura canônica, da baixa literatura, literatura menor ou marginal. O que percebemos é uma crise, na pós-modernidade, desses juízos de valores, em que o lixo, o ordinário, o cotidiano, ganha qualidades artísticas que corrompe com a estética do belo, com o equilíbrio das formas, por ter acentuado ou sinalizado qualidades além do tradicionalmente estabelecido, do dito canônico ou acadêmico. Se bem, é claro, que para ter um novo significado adquirido ele passa por um processo de ressignificação, de requalificação, estabelecido por uma voz autorizada que corrompe a ordem anterior, transgride as regras, e, de certa forma, estabelece novas formas de ver o mundo, novos paradigmas, nova percepção da realidade. O importante de se observar é que na última década está havendo uma tendência a se estabelecer um processo mais acentuado de ruptura desses conceitos, quando os valores de arte ou não-arte são contestados, e passa a ter como base o olhar individual. De que forma aquele objeto é para mim artístico ou não?! Tendo como ponto principal a emoção, a sensação que aquele objeto me desperta, ao apresentado a mim num novo contexto. Creio que essa perspectiva se assemelha à postura fenomenológica, quando voltamos nosso olhar para o objeto e buscamos significa-lo, através de um contato, de uma relação existencial, onde buscamos "colocar entre parênteses" nossos preconceitos, nosso olhar normalizado, e buscamos alcançar dimensões mais sensíveis, menos contaminadas pelo juízo de outro, explorando as infinitas possibilidades e ângulos da forma e do fenômeno que se manifesta. Na literatura, temos o abandono, em parte, do discurso oficial, das grandes temáticas sociais, dos grandes ideais panfletários e politizados para submergir no eu, na subjetividade de um narrador que a cada instante se descobre (e se perde) como sujeito da trama, muitas vezes imprecisa, incoerente ou desassossegada, quando verdades são desfeitas e buscam-se respostas que talvez não existam, ou existam num espaço e numa realidade restrita, do indivíduo. Observamos, então, o crescente número de obras literárias de caráter autobiográfico, introspectivo e confissional. Em outro ponto, principalmente por meio da um interesse cada vez maior despertado pela mídia, temos a banalização da vida privada, através de programas como Big Brother, como forma, talvez, de se estabelecer contato, de se buscar no outro verdades, padrões e valores que não conseguimos encontrar em nós mesmos, em nosso circulo de relações frágeis e fragmentados, perdidos e desencontrados que somos. Temos então na pós-modernidade um momento caótico, de mudanças bruscas e de rumos indefinidos. Na Gestalt-Terapia vejo uma relação bem coerente a esse processo. Ao buscar uma perspectiva ateórica (não interpretativa, não sugestiva, que não castra as possibilidades diversas do indivíduo) na abordagem com o paciente, estabelece-se uma relação imersa num caos, o que não significa o mesmo que desordem, mas sim indeterminísta, que possibilitaria travar contatos criativos com o indivíduo desencontrado consigo mesmo e inconsciente de sua própria existência, com sua realidade, com sua vida e individualidade. Assim, temos não apenas o paciente com sua doença a ser tratada, mas uma situação em potencial de recriar e ressignificar o mundo, entrar em diálogo com as aflições, com os desejos e medos do sujeito, que sai, ao menos momentaneamente do completo anonimato das multidões, dos discursos e das ideologias, cada vez mais vazios e frágeis, para dialogar com o eu e o outro, que em relação, se encontram e se constroem, desenvolvendo seus potenciais criativos, sua expressividade e sua autonomia e auto-regulação. É isso! Não posso dizer que neste momento não trago um discurso e não me coloco como uma voz autorizada que expões um ideal. Mas acho que a pós-modernidade não anula simplesmente os ideais, apenas fragilizando-os, desorganizando a realidade e o mundo como concebemos com nosso olhar condicionado e viciado, para que possamos, talvez sozinhos, talvez em contato com um outro, numa relação eu-tu, criar e significar nossa própria realidade, conscientes sempre de sua mutabilidade e da presença constante de vazios e formas a preencher e fechar com nossas muitas escolhas possíveis no aqui, no hoje, neste segundo que escorre como pintura de Salvador Dalí. Salvador, 12/08/2005 Comments:
GESTALT-TERAPIA: UM PARADÍGMA "ATEÓRICO"
- DIVERGÊNCIAS COM A PSICANÁLISE Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Em nossa última reunião discutimos, dentre outras coisas, a questão da ruptura entre Perls e a Psicanálise e as distinções entre a abordagem gestáltica e a psicanalítica. Durante essa discussão, Bruno levantou a idéia de que um gestalt-terapeuta jamais indicaria um paciente o tratamento com um psicanalista, fundamentando este argumento no fato de a gestalt-terapia ter surgido em oposição ao método e à teoria psicanalítica ortodoxa de Freud. Inicialmente, tomarei como base a concepção ateórica de Perls, para desenvolver uma argumentação sobre o assunto. Podemos dizer, dentre outras coisas, que a oposição entre a Gestalt-terapia e a Psicanálise vem não apenas de incompatibilidades teórico-metodológicas, mas que, inclusive essas incompatibilidades, advêm da desilusão e negação pessoal de Perls a Freud e sua abordagem, o que coincidiu com o rompimento com outros psicanalistas na mesma época, como levanta Ana Maria Kiyan: (...)Aos poucos, fundamentalmente devido à decepção com Freud e também a seu modo específico de olhar para a vida, Perls passou a uma atuação na qual não cabia mais a prática psicanalítica e seus pressupostos. (...)Além do rompimento de Perls com a psicanálise, outros rompimentos importantes estavam acontecendo: primeiro Jung, e logo depois Reich (...) (1) Como pudemos observar ao longo desses dois primeiros semestres de graduação, há nas ciências, e em destaque na Psicologia, uma tendência de negação do pensamento antecessor e dominante, dando-lhe formas e proporções incoerentes, a fim de fundamentar um argumento ou um modelo explicativo. Podemos ver isso inclusive na própria Psicologia da Gestalt, que tido como "contestador", surge em oposição ao modelo introspectivo e ao método fragmentador e analítico de investigação de Wundt, propondo um outro modelo explicativo para os processos de percepção, tendo como base a perspectiva fenomenológica e o princípio de totalidade de Brentano e Husserl. Assim, também a Gestalt-terapia surge como que em oposição ao método analítico da psicanálise que, por ser o paradigma dominante na clínica, é de certo modo negado por Perls, que propõe, ao invés de uma imersão no passado e no inconsciente, propõe a presentificação e a experimentação vivencial. É importante salientar, no entanto, que, como já foi mencionado, essa ruptura deu-se principalmente por uma decepção pessoal de Perls à psicanálise, que, como reação passou a nega-la como método e modelo explicativo. Temos no entanto que por mais de 20 anos Perls foi psicanalista e, como tal, propôs uma revisão da teoria em comunicação realizada na Tchecoslováquia, em 1936, não tendo, no entanto, a recepção esperada pelo grupo de psicanalistas, revisão esta que foi desenvolvida e publicada seis anos depois, sob o título de Ego, Fome e Agressão (2). Partindo dessa ruptura, Perls propôs uma abordagem ateórica (o que não quer dizer que se trata de uma abordagem sem fundamentação teórica) no sentido de negar qualquer modelo pré-estabelecido, qualquer explicação pré-concebida, para lidar e trabalhar na terapia com as questões do paciente, justamente em oposição ao modelo explicativo da psicanálise, que segundo consta, tenderia a enquadrar os casos clínicos à julgamentos coerentes ao seu corpo teórico. Essa postura seria adequada ao próprio método da gestalt-terapia de valorizar a experimentação existencial, o momento vivencial como forma de possibilitar ao paciente entrar em contato com sua própria realidade, com o momento do agora, desprovido de determinismos ou verdades absolutas, tendo em vista uma concepção de homem mutável e em constante processo de construção de si mesmo. Sobre essa questão, fala Alberto Pereira Filho em seu livro Gestalt e Sonhos, sobre a questão da negação da concepção de inconsciente da psicanálise: Considero autentica e louvável a tentativa de rompimento com a psicanálise e seus pressupostos teóricos, em especial se levada em conta a imensa contribuição de Perls para o repertório metodológico das psicoterapias. Que uma autonomia metodológica custe o preço de um desabono, de uma desqualificação, porém, parece-me um recurso infeliz, compreensível somente se visto no contexto idiossincrático da história do autor. Uma negação, no sentido filosófico do termo, ou seja, de absorver e ir além, seria mais coerente com uma proposta integradora.(3) O fato, no entanto, de haver uma negação de Perls à teoria e ao método da psicanálise não significa dizer que deva haver um descrédito dessa abordagem por parte dos gestalt-terapeutas ou dos interessados em se aprofundar nessa abordagem. A própria psicanálise sofreu suas alterações e adaptações aos novos tempos, e em muito ainda serve para compreender o pensamento ocidental na pós-modernidade. O fato de a perspectiva de trabalho com o paciente ser de uma ou outra forma não invalida a possibilidade do seu progresso na terapia, de trabalhar com suas demandas e de conseguir alcançar uma melhor compreensão do indivíduo. Assim como propõe a própria abordagem gestáltica, a verdade, a compreensão de um fenômeno (no caso a terapia), é subjetiva, é individual e coerente à forma de uma consciência significar e desenvolver uma relação. Creio que conceber a negação de uma ou outra abordagem, invalidando-a como veículo catalizador de mudanças, é cair numa intransigência que, ao menos para mim, vai de encontro à própria práxis da Gestalt-terapia, que prima pela relação e pelo seu papel de criação e transformação. Acredito que cada método terapêutico, em sua diversidade, tende a ser adequado também a cada indivíduo, com seus valores, sua história e visão de mundo. Certa vez tive uma discussão com nossas colegas Delma e Marília e levantamos a questão de que até mesmo a ciência, com suas mais diversas vertentes e corpos teóricos, condizem de certa forma com crenças, assim como a religião, a filosofia, a política, dentre outras, pois são formas de ver o mundo, forma de interpretá-lo, de significá-lo, servindo como paradigma para nele se posicionar. A grande questão existente é que haveria uma tendência de se valorizar mais a ciência que outras formas de saber, sendo esta ciência eminentimente positista, que seria mais "verdadeira" por possibilitar a apresentação de dados "absolutos", fatos exatos e comprovados empiricamente ou por advir de um raciocínio e método de análise minunciosa, rígido, capaz de possibilitar resultados mais efetivos. Temos, no entanto, que toda essa eficácia e verdade depende do referencial de cada pessoa, podendo outras abordagens, que não estritamente científicas, apresentar o mesmo efetividade sobre a vida de uma pessoa, à medida que essa encontra uma identidade, sua integridade, sentir-se contextualizada. Acredito que o mesmo ocorre em relação às psicoterapias, com suas diversas abordagens, diversas formas de trabalhar a subjetividade, múltiplas possibilidades de descoberta e inclusão do indivíduo no mundo. A grande questão a ser considerada e trabalhada é que cada uma delas tem suas singularidades e precisam ser vistas como perspectivas, como formas distintas e diversas, que são, de significar o mundo. São verdades possíveis, porém nunca absolutas ou incontestáveis. Creio ser necessário o exercício do diálogo, e não o confronto e a intransigência entre cada uma das formas de pensar a realidade. Sei que isso é difícil de ser alcançado, tendo em vista a necessidade que temos de buscar bases sólidas para nossa vida, algo que nos possibilite uma ilusão de segurança e estabilidade. Isso me faz lembrar uma alegoria de Kafka, intitulado Fábula Curta, em que a personagem, um rato, reflete sobre o mundo, que progressivamente foi se tornando estreito, à medida em que ele corria de encontro a muros, que inicialmente lhe causaram uma sensação de conforto, mas que, progressivamente foram se encontrando, até que só havia à frente uma ratoeira ou como outra única alternativa, voltar atrás, sendo no final devorado por um gato. Neste conto é possível percebermos, se fizermos uma associação entre os muros e a idéia de paradigmas, que, muitas vezes estes possibilitam delimitar nossa compreensão do mundo, possibilitar um recorte de nossa realidade, a fim de que possamos nos situar de forma mais objetiva. No entanto, dependendo da forma como nos agarramos a esses limites, podem nos limitar, nos restringir, castrando nossas possibilidades de perceber e vivenciar o mundo à nossa volta, as perspectivas e possibilidades diversas que, potencialmente nos aparece, impossibilitando uma visão mais ampla de nossa existência. É claro que os paradigmas são de certa forma necessários, para nos possibilitar o mínimo de coerência em nossos posicionamentos, tal como as bases que constituem uma filosofia ou uma linha teórica que fundamentam uma abordagem. É preciso, no entanto, termos a lucidez de que nossa percepção do mundo, apesar de objetiva, é particular e pode abarcar dimensões diversas da do outro, não nos cabendo atribuir juízo de valores ao paradigma do outro tomando como parâmetro nossos próprios paradigmas. Possibilitando o contato, e não a sobreposição, entre essas perspectivas através do diálogo, que no caso da práxis psicoterápica, seria a transdisciplinaridade. Essa postura me remete ao relato de nossa professora Lika Queiroz, que disse ter participado de workshops realizados por uma equipe de formação humanista, encabeçada por Carl Rogers, composta por vários profissionais, de várias áreas e vertentes, da psicologia ou não, incluindo um surfista, o que demonstra a possibilidade de construção de um conhecimento através da diversidade, sem que com isso se perca a individualidade e a coerência de cada olhar sobre o mundo. Admito que essa perspectiva vai muito além do nosso olhar condicionado, e nisso me incluo, mas creio que, se a Gestalt-terapia valoriza a possibilidade do contato e enfatiza a questão da relação, sem desprezar o papel da subjetividade e da verdade do sujeito, certamente, apesar das divergências de caráter teórico metodológico, a negação de uma ou outra abordagem, de um ou outro paradigma, é, ao menos para mim incoerente como postura ética a ser tomada, se levado em conta seus próprios fundamentos. Bem, essa a minha posição, minha interpretação sobre a questão levantada por nosso colega e companheiro de grupo de estudos, Bruno. Imagino que ainda venhamos a ter muitas divergências, mas acho ser fundamental a possibilidade da discussão, sem que precise, necessariamente chegar a um consenso, posto que, às vezes, o consenso e a mera aceitação, restringe nossas possibilidades de desenvolvimento e comunicação. Acho sim, que temos que trabalhar nossa tolerância. É difícil, é complicado, é até mesmo um sacrifício, mas é o ponto de partida, talvez, para um paradigma novo. É um ponto fundamental para que a psicologia continue se desenvolvendo como campo de multiplicidade e diversidade. Salvador, 28/07/2005. P. S.: Não sei o porquê, mas sinto-me falando que nem nosso antigo professor de Sociologia, Geraldo Ramos. Como as coisas mudam, não?! NOTAS BIBLIOGRÁFICAS: (1) KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana, 2001, p. 120. (2) PERLS, Frederick S. Ego, Fome e Agressão. São Paulo: Summus, 2002. p. 9. (3) LIMA FILHO, Alberto Pereira. Gestalt e sonhos. Goiânia: Dimensão, 1993. p. 36. Comments:
A LIBERDADE EM GESTALT-TERAPIA,
O EXISTENCIALISMO, O ABSURDO E O SUICÍDIO Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Neste momento me proponho a fazer um levantamento de idéias, sob um olhar bem particular, sobre a questão da liberdade, influenciada pelo pensamento existencialista, na Gestalt-Terapia. Para tal fim, tomarei como ponto de partida as discussões travadas durante nossa segunda reunião no grupo de estudos, bem como algumas leituras minhas, que creio, podem ser pertinentes ao assunto. Ao longo de nossa reunião, debatemos, dentre outros pontos, as diferenças entre a abordagem gestáltica e a psicanalítica (ortodoxa) e behaviorista (metodológico), tendo como base as distinções traçadas por Hugo Elidio, em seu livro "Introdução à Gestalt-terapia", bem como os pressupostos esboçados em "E a Gestalt emerge", de Ana Maria Kiyan. A diferença estabelecida por Elidio se daria principalmente no tipo de paradigma e concepção filosófica por trás dessas abordagens, bem como na relação terapeuta-paciente. Segundo ele, tanto a psicanálise quanto o behaviorismo, com suas devidas singularidades, apresentariam um modelo explicativo, baseado em relações causais, que determinariam segundo um olhar mecanicista de homem, a construção do indivíduo e a manifestação de quadros patológicos. A Gestalt-terapia se distinguiria dessas abordagens principalmente por apresentar um método de análise descritiva, tendo como base o modelo fenomenológico-existencial, valorando não apenas os fatores influenciadores em um deternimado sintoma ou situação apresentada. Ela Enfatiza, então, a importância da relação e vínculo terapeuta-paciente, como um processo dialógico, sendo lançado um olhar do sujeito como ser dinâmico, mutável e integral, primando-se principalmente pela afirmação da liberdade do sujeito, por sua autonomia e capacidade de auto-regulação e valorização de suas potencialidades. Para que essas qualidades do sujeito fossem compreendidas, no entanto, seria necessário que se estimulasse a consciência de liberdade do sujeito, que não implica simplesmente na possibilidade de livre ação e expressão, mas na compreensão de que a liberdade implica em responsabilidade sobre si e sobre o mundo. Creio ser esta a idéia apresentada pelo texto, no que diz respeito à questão da liberdade segundo o existencialismo. Vejo, no entanto, a nossa necessidade de aprofundarmos um pouco mais neste ponto, em nossos estudos e discussões, tendo em vista que essa noção é ponto de crítica fundamental das outras abordagens em relação às abordagens humanistas em geral, da qual a Gestalt-terapia também faz parte. Um dos pontos cruciais talvez no que diz respeito à visão existencial do sujeito seria o fato de trazer para ele a responsabilidade sobre sua própria vida, de sua própria existências, sobre seus atos e as conseqüências deles sobre si e o meio à sua volta. Essa perspectiva aumentaria o caráter de autonomia e auto-gestão do sujeito, que creio ser fundamental, e que vai de encontro à concepção de homem subordinada e dependente a esquemas de controle ou mecanismos inconscientes. A Gestalt-terapia, acredito eu, não nega a existência desse controle ou dos conteúdos inconscientes, mas apresenta em relação a eles uma visão distinta. Sua concepção de homem prima, fundamentalmente, pela compreensão do sujeito como um todo coerente e relacional, tendo essa relação um caráter dinâmico, seguindo uma ordenação de campo. Segundo esse olhar, as relações se dão sob um modelo dialógico eu-isso ou eu-tu, de mutua significação e de caráter construtivo, em que o contato implicaria em troca de experiências, sem que com isso se perdesse a autonomia do sujeito. Quanto à questão da liberdade, o tema que proponho como central nesta reflexão, a Gestalt-terapia traz uma concepção própria do existencialismo, segundo a qual a liberdade implica em consciência acerca da responsabilidade sobre si mesmo. Segundo essa visão filosófica, o indivíduo é responsável por sua própria existência no mundo, pela condução de sua vida e pelo caminho por ele percorrido. Daí a importância do papel da escolha. Escolha essa que implica inclusive na ida ou não à terapia e no compromisso de se integrar à relação terapêutica. Segundo essa visão existencial, o homem não teria mais a ilusão de um suporte ou autoridade, que poderia ser representada por Deus, da sociedade ou do mundo ou das "contingências", que personificados, determinariam e seriam os "culpados" pelos rumos de sua vida. Assim, na impossibilidade de direcionar para um outro as responsabilidades, o homem seria convocado a se posicionar existencialmente, no momento vivencial do agora, não se permitindo evadir-se para o passado ou futuro, como forma de criar ou idealizar perspectivas falsas, ilusões. Esse olhar existencial traz consigo uma carga e um peso muito grande, para não dizer insuportável, sobre o homem moderno, criando um sentimento de inevitabilidade que me remete, neste momento, aos personagens do escritor tcheco do início do século, Franz Kafka. Em suas histórias, classificadas por alguns como realismo fantástico, observa-se a construção de personagens condenados a existências transtornadas, imersos em situações labirínticas, sem alternativas aparentes, em que o ser em questão não consegue se desprender de suas prisões, não conseguem fugir de seu destino, o que imprime ao leitor uma sensação de angústia imensa. De modo geral, trata-se de personagens solitárias, em muito desumanizadas, ou zoomorfisadas, imersa numa atmosfera de irrealidade. A nós, envolvidos em nossos laços sociais e emocionais, entre familiares, amigos e colegas, essa perspectiva existencial ganha tons caricatos, numa configuração verdadeiramente "fantástica", senão absurda. Percebemos, no entanto, que esse sentimento como que se perpetua na literatura e nas artes ocidental do século XX, quando me remeto, por exemplo, às peças teatrais e narrativas de Samuel Beckett. Nelas, de forma análoga a Kafka, os personagens são imersos na incomunicabilidade, em relações estéreis, marcadas por um forte traço de dependência, umas às outras, perdidas numa linguagem de fluxo verborrágico e caótico (onde se perde a possibilidade de significação), de idéias entrecortadas por longos vazios desesperadores, num tempo-espaço inexistente e imutável. Em ambos os casos, diante da inevitabilidade, da repetição e da esterilidade da vida, o sentimento, que muitas vezes se manifesta após a leitura desta literatura, e que pessoalmente me desperta atenção, é a de morte. A morte, que em situações de tão poucas, ou nenhuma, perspectivas, ganha um sentido mais alentador neste mundo de desassossego, mais certo e definitivo, em contraste ao caos e incerteza. O que me faz remeter a estes escritores é, não apenas a perspectiva fatalista da existência que, de algum modo a filosofia existencialista desperta, mas um dado levantado durante as discussões do grupo de estudo. Enquanto discutíamos sobre a questão da liberdade e do existencialismo, meio a tantos outros pontos de texto do texto de Elidio, Andréa, que estava presente, comentou haver em Salvador um grande índice de suicídio, fato este que seria sufocado pela imprensa, provavelmente para evitar que se desfaça a imagem construída de "terra da felicidade, da alegria e do Carnaval". Pensando sobre isso, fiz essa conexão, não apenas com os autores mencionados, que expressam o sentimento de vazio e angústia próprio da (pós-)modernidade, mas também a do filósofo Albert Camus, autor do qual li apenas o seu livro de estréia "O Avesso e o Direito", mas que desde esta obra traz justamente esse sentimento de contradição, ao retratar a pobreza social em oposição às manhãs ensolaradas na Argélia e, principalmente, ao enfocar sobre a inevitabilidade da morte. Neste ponto, observamos a morte constituída como a única certeza, o único elemento imutável, o ponto absoluto da existência humana, embora impossível de ser determinado precisamente em sua temporalidade. Nesta óptica, a morte representaria o limite da vida, a fronteiras da existência e o seu foco possível no tempo agora, imprimindo a necessidade do estabelecimento do sujeito no momento vivencial, como única possibilidade aparente de fazer-se significativo. Agora, aonde configura a questão do suicídio? Creio que justamente como forma de, diante das incertezas, do caos e do absurdo, se alcançar uma certeza objetiva, uma segurança e clareza da própria existência através de seu ponto ápice e final. Levanto isso sob um olhar absolutamente particular, numa leitura que creio ser possível, sobre a questão do existencialismo, mas tenho consciência da necessidade de me aprofundar através de outras leituras mais objetivas. Este artigo-relato tem, no entanto, apenas a pretensão de levantar pontos de vista e interpretações pessoais. Uma visão explicativa sobre a questão do suicídio buscaria levantar algumas causas que seriam responsáveis pelo ato em si, talvez o sentimento de vazio, talvez a incomunicabilidade, a perda de entes queridos, do emprego, ou ainda um quadro psicopatológico que, por si só, já teriam causas diversas. Vejo no entanto o suicídio como um posicionamento existencial, uma forma de posicionar-se diante da vida, do mundo e da própria existência. Não digo isso no sentido de pregar uma apologia ao suicídio, mas concebo tratar-se de uma posição existencial tanto quanto a ida ao terapeuta a fim de buscar uma compreensão desse sentimento de angústia e morte. A própria fuga, como podemos encarar às vezes, de fora, o suicídio, é um escolha existencial, o uso da liberdade sobre a própria vida. A alienação, de certo modo, tende a ser uma posição existencial, consciente ou não, mas coerente, creio eu ao próprio estagio existencial de cada indivíduo. No caso da terapia, em destaque a Gestalt-terapia, está teria como fogo despertar justamente esse olhar vivencial, essa consciência e essa coerência no indivíduo, possibilitando vivenciar suas emoções, significar seu mundo e posicionar-se. Se diante da idéia do suicídio, creio que buscaria fazer o eu em questão significar esse desejo, trazer os elementos que se manifestam como necessidade, reconectar o individuo ao mundo, às suas relações afetivas, possibilitando que este abra o leque de possibilidades, de experiências e expressões possíveis. Creio ser vital a abertura que a abordagem gestáltica possibilita ao indivíduo, ao abarcá-lo como totalidade e como consciência de si mesmo, como ser de experiência e expressão, capaz de escolhas e, principalmente, construção de si mesmo, de sua vida, que eternamente é uma perspectiva, um vir-a-ser. Tenho que admitir meu desconforto pessoal em relação à idéia de ser resultado ou expressão unicamente de um mundo externo ou de um inconsciente psíquico. Acredito na minha posição de integrante um uma sociedade, de uma cultura, de um todo maior, mas também me vejo como agente nessa construção pessoal, mesmo que sem ter um projeto pré-estabelecido (mesmo porque essa projeção seria uma ilusão), mas como um complexo processo de escolhas, de pequenos passos, de diálogos com os outros, com as palavras, com os sentimentos e com minhas próprias limitações. Admito aqui não sentir-me livre nem autônomo, mas ao menos essa perspectiva já traz uma visão menos pessimista que, de modo geral tenho da vida. Aqui como que faço uma confidência. Sinto que ainda estou muito distante de alcançar o olhar pleno e existencial, de exaltação e afirmação das potencialidades do indivíduo, mas o simples fato de fazer parte desse grupo representa para mim uma escolha existencial, um primeiro passo, que espero possa mobilizar muitos outros, para além do labirinto, do silêncio e do absurdo. Salvador, 21/07/2005. PS.: Gostaria de ter abordado muitos outros pontos, mais as idéias tralharam um rumo imprevisível. Mas convenhamos dizer, a previsibilidade é absolutamente frustrante. Comments:
MANIFESTO EXPRESSIONISTA E GESTALT-TERAPIA,
O(S) VAZIO(S), O(S) NADA(S) E O POETA Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior. Escrevo esse breve artigo (se é que se trata de um artigo, ou não um relato pessoal) como primeiro produto, ainda prematuro, do nosso grupo de estudos em Gestalt-Terapia. Creio que os pontos tratados por mim, neste momento, serão mais impressões pessoais sobre temas diversos, que propriamente sobre a abordagem de Perls. Assim, não busco, ao menos agora, me aprofundar muito nos pressupostos ou na introdução do nosso objeto de estudo, mas tecer comentários paralelos, que talvez venham a coincidir ou difira de todo do olhar gestaltico. Em todo o caso, vamos lá. No nossa primeira reunião, realizada dia 13 de julho, trouxe para o grupo o manifesto expressionista alemão de Kasimir Edschmid, de 1918, que tinha como título "Expressionismo na Poesia". Seus dois primeiros parágrafos, que foram os que mais me chamou atenção, eu reproduzo abaixo: A terra é uma paisagem imensa que Deus nos deu. Temos que olhar para ela de tal modo que ela chegue a nós sem deformação. Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida. Os fatos acreditados, imaginados, anotados não são o suficiente; ao contrário, a imagem do mundo tem que ser espelhada puramente e não falsificada. Mas isso está apenas dentro de nós mesmos. Assim o universo total do artista expressionista torna-se visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestalted). Ele não colhe, ele procura. Agora não existe mais a cadeia dos fatos: fábricas, casas, doença, prostitutas, gritaria e fome. Agora existe a visão disso. Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles. (...)(1) [grifos meus] O motivo que me levou a trazer esse texto, foi a palestra proferida no dia 25 de maio, pelo gestalt-terapeuta Afonso Henrique da Fonseca, sobre "Atualidade da Gestalt-Terapia", em que ele trazia os principais fundamentos da abordagem de Perls, incluindo a o expressionismo alemão, tendo em vista tratar-se do movimento intelectual e boêmia do qual Fritz tomou parte após a 1ª Guerra Mundial. Afonso, na referida palestra, caracterizou Expressionismo pela "valorização da subjetividade do indivíduo, não voltada para a representação da realidade, mas a vivência da criatividade, da inspiração e da expressão"(2). Ele também qualificou a Gestalt-Terapia como uma abordagem expressiva e experimental, não no sentido do experimentalismo científico dos primórdios da Psicologia, mas no de "expressão voltada para o novo". Na época da palestra ainda não tínhamos entrado muito a fundo nos conceitos nem nas perspectivas da prática gestalt-terapeutica, mas a possibilidade de conciliar psicologia e arte, como uma forma de inovar, de criar e vivenciar uma realidade subjetiva, numa prática que fosse além de aplicação de uma teoria pré-estabelecida e modeladora, verdadeiramente me encantou e deu novo incentivo para eu permanecer no curso de Psicologia, tendo em vista minha grande inclinação para Letras. Bem, voltando ao manisfesto expressionista de Kasimir Edschmid, podemos ver termos como essência, significação, percepção (percebe), acumulo de vivências e estrutura (gestalted). Eles remetem a conceitos principalmente da fenomenologia (essência, significação) e da Psicologia da Gestalt (percepção, estrutura), mas contextualizados, nas víceras do textos, percebemos que vai muito além da simples apropriação de conceitos. Quando lemos no manifesto, por exemplo, que "Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida.", nos deparamos com a realidade como fruto da relação entre o sujeito e o mundo, uma relação sensório-afetiva, vivencial, em que a realidade é a realidade para uma consciência, que a experimenta e a significa, tal qual propõe a fenomenologia. Da mesma forma como ao dizer que "Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestalted)", podemos inferir, eu acho, uma relação com a Psicologia da Gestalt, sobre o processo de percepção através da vivência e da experiência da realidade, que se estrutura na boa forma, através de diversos mecanismos como o de figura-fundo, em que o mundo não é reproduzido, mas é estruturado pelo sujeito, e vivenciado por ele, no campo da consciência, em sua subjetividade-objetiva. Bem, não vou me estender muito em terreno que não domino. O que mais me impressionou, como já disse, foi a possibilidade de conexão entre a arte e a psicologia, entre um tratado estético e conceitos científicos da psicologia e da filosofia. Mas, antes de tudo, a idéia de vivência e experimentação, em que "Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles." Em que a realidade do sujeito só é alcançada por ele mesmo, no momento em que vivencia sua realidade, e vai além do mundo objetivo, em que significa e ressignifica, em que "Ele não colhe, ele procura" respostas, caminhos e significados, no mundo do agora, do aqui, e do sensível. Creio ser importante trazer essa possível ligação entre o Expressionismo e a Gestalt-terapia, por tratar-se de um registro no mínimo interessante o fato de um tratado estético ter antecedido, embora seja contemporâneo à outras influências diretas na vida de Perls, o ideal de vivência e experimentação da subjetividade, proposta muitas décadas depois pela abordagem da Gestalt-terapia. Outro ponto que gostaria de comentar, agora já me distanciando do possível elo Gestalt-Terapia -- Expressionismo, foi em relação a um dos pressupostos apresentados no livro E a Gestalt emerge, em que a autora, Ana Maria Kiyan, traça a ligação entre a Gestalt-terapia de Perls e a filosofia oriental, em especial no que diz respeito à idéia existencial de nada e vazio. Em fragmento do texto, a autora diz que: (...) Segundo a Gestalt-terapia, "o nada é um lugar" psíquico fundamental para se estar, dependendo do momento; é nele que o indivíduo pode entrar em contato com a experiência de ser, sendo o que é. É esse ponto zero que acontece o momento de criação, em que qualquer coisa é possível. Perls freqüentemente referia-se a dois tipos de vazio: o estéril e o fértil, sendo esse segundo tão vazio quanto o primeiro porém configurando-se como terreno fértil para novas possibilidades.(3) Durante a nossa primeira reunião ficamos em dúvida sobre o que viria a ser esse nada, se a mesma noção apresentada pela tradição oriental seria a de Perls, e qual o significado para ambos. Tivemos três opiniões: Bruno, meu colega de semestre e um dos organizadores do nosso grupo de estudos, acreditava (espero não estar distorcendo suas idéias) que o nada teria o sentido de harmonia e equilíbrio, expresso pela tradição oriental zen-budista. Esse lugar talvez fosse o da totalidade, em que não há pensamento racional, mas fusão com o universo. Lugar de silêncio (?), eu imagino, e de serenidade. Particularmente eu não consigo compreender bem como, ao se alcançar esse estado de vazio, de harmonia, esse ponto zero, haveria a criação. Pergunto-me inclusive qual, ou como, seria essa criação. Eu tenho que admitir minha dificuldade de romper com alguns de meus paradigmas. Terei de me abrir a essa nova perspectiva. Outra possibilidade para o nada seria quanto à relação vivencial eu-tu, enquanto processo no qual se estabeleceria uma totalidade, onde o nada seria a própria relação, que quando vivência é desprovida de racionalidade, é pura experiência, fenômeno imediato, no aqui e no agora, sendo só possível sua racionalização a posteriori, quando paramos para refletir e dar significação a este momento vivido. A essa possibilidade de interpretação sobre o sentido do vazio e do nada, todos, ou quase todos, de alguma forma compreenderam e concordaram. A minha opinião, expressa antes do vazio na relação eu-tu, que creio ter sido levantada por Amanda (não sei bem se ela se chamava assim, pois sou péssimo em gravar nomes), estudante do 7º semestre e que faz formação em Gestalt-Terapia com Afonso, é de todo diversa. Geralmente tenho essa "qualidade" de divergir dos outros, mas tudo bem. A minha interpretação sobre o nada diz respeito ao nada vivido pelo escritor, pelo poeta, trazendo assim o termo para minha realidade. Esse vazio seria o que geralmente se chama de ¿vazio do artista¿, aquele momento de tensão que antecede o momento da concepção, da criação poética, ou seu oposto, o momento após a criação, equivalente, para alguns, ao momento de morte. Quando penso na vazio antecedente à escrita (ou a qualquer outra expressão artística), me refiro ao instante em que a poesia se faz necessidade, tensão e angústia, marcado principalmente pela faz de palavras, ou de idéias, para expressar um sentimento qualquer, uma emoção enlouquecida, um desejo de vida. Creio tratar-se, não do momento de equilíbrio, mas de seu antônimo, quando o poeta se vê mergulhado numa esterilidade desesperadora, numa ânsia violenta de vida e de concretude, mas é frustrado. Às vezes, a própria esterilidade torna-se matéria poética, algo que observamos na literatura contemporânea, quando o poeta ou o escritor relata sua impossibilidade de significar o mundo a sua volta, de criar, de viver, meio ao deserto das palavras ou ao caos de mundo e da existência. Particularmente é essa a sensação de vazio que sinto, enquanto poeta, principalmente por achar que a poesia, assim como a terapia, religião, política, etc, para outras pessoas, é o momento meu de encontrar minha existência, de significar minha subjetividade, de sentir-me vivo, de ser e existir como consciência. Nesta perspectiva, o vazio não é nem o momento de harmonia ou de equilíbrio, nem fruto da relação eu-tu, a não ser que o tu seja o eu, ou a poesia, as palavras, ou a folha de papel, mas, em todo o caso, a sensação é mais de fragmentação que de totalidade. O outro vazio, seria o período seguinte à concepção poética, quando tudo o que poderia (e não o que se queria) ser dito se tranforma em linhas, letras, palavras, em sentimos a sensação de morte, de anulação, às vezes até de perda, que, paradoxalmente se opõe e se equivale à tensão do vazio estéril antecedente à escrita. Este momento, também, não é o momento de criação, mas de reflexão, de julgamento estético do próprio autor sobre a criação, sobre o poema, o texto. Talvez, e nisso eu acredito, o momento verdadeiramente de equilíbrio, ou de equilibração, de tornar-se vivente e consciente da sua existência, seja o momento em si, o tempo e o lugar da concepção, o agora em que o caos ganha forma, torna-se sensível, é expresso e significado pelo eu que se descobre e se propõe como narrador ou eu-lírico. Creio que é no momento da escrita, seja por inspiração (ou insight), seja por persistência para quebrar o vazio de esterilidade, que eu, poeta e criatura, posso "entrar em contato com a experiência de ser, sendo o que sou". Assim, não concluo nada, apenas levanto minhas primeiras impressões e idéias, e, talvez, lanço mão de uma possibilidade a mais de discussão. De meu nada, meu vazio, ou de meus nadas e vazios, pouco sei, em correlação com o da Gestalt-Terapia de Perls. O equilíbrio do nada zen é para mim estranho, embora sinta interesse verdadeiro em conhecer como filosofia e fundamento do objeto que me proponho, no grupo de estudo, a compreender e aprimorar. Aqui fico, nesse artigo-relato um pouco maior do que eu queria que fosse, mas sou verborrágico e caótico por excelência. Espero sinceramente que nosso grupo de estudos se estabeleça e tenhamos bons frutos. Salvador, 17/07/2005 NOTAS: 1. TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos prefácios e conferencias vanguardistas, de 1857 a 1972. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997, p. 111. 2. Minhas anotações da palestra de Afonso Henrique, em 25 de maio de 2005. 3. KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana, 2001, p. 146. Comments: Segunda-feira, Agosto 06, 2007
PRINCIPAIS LINKS E SITES DE BUSCA SOBRE TEORIA DA GESTALT:
• http://www.apogeephoto.com/mag2-6/mag2-9gestalt.shtml • http://www.geocities.com/Nashville/stage/9882/index.html • http://gestalttheory.net/ • http://psychclassics.yorku.ca/index.htm Comments: Comments: |